Pagode rolando. Chopp na mesa. Porção pra jantar. Eu e mais
dois amigos estávamos em um bar próximo a Vila, na esquina do canal 1. Nas
mesas ao lado alguns parentes dos integrantes do tal grupo de pagode dançavam.
Além de nós três, mais cerca de sete santistas ostentavam camisas do clube do
coração. A nova e a velha geração se misturavam ali. Alguns com os cabelos
brancos já querendo tomar conta, outros de não mais de cinco anos, talvez fosse
sua primeira vez num clássico, e até ali tudo bem.
No
alçapão santista o torcedor viu o que está acostumado neste ano: Vitória. Em
grande atuação do menino que vem enchendo os olhos de todos, Geuvânio, o peixe
venceu por dois tentos a um, gols marcados por Neto e Thiago Ribeiro, com Alan
Kardec – velho conhecido, e querido, dos santista descontando. Foi a oitava
vitória em oito jogos de um time que, dentro do Campeonato Paulista, não perde
em seus domínios há três anos (a última derrota fora justamente para o
Palmeiras).
Demoramos
um pouco para chegar ao bar por conta dos mais de doze mil que lotaram a vila
famosa. Alguns carros de polícia chegaram à rua ao lado e uma movimentação
anormal foi notada por nós. Os donos do lugar fecharam a entrada com os dois
portões que deixam retirados da entrada. O que estava do lado de fora assustava.
Três
ônibus de torcedores do Palmeiras vinham pela rua em direção à saída da cidade.
Os dois primeiros de torcedores organizados. Em um deles vários integrantes
figuravam na parte da frente, o que estava à porta a abria e fazia sinal com as
mãos. Vem. Vem. Os outros nas poltronas
abriam as janelas e repetiam o sinal. Vem.
Vem. Eram cerca de 100 torcedores organizados contra no máximo dez
policiais em duas viaturas. Sem contar o último ônibus, que parecia contar
apenas com torcedores sem ligação com tais torcidas.
O que
estava à porta fez menção de descer e foi impedido por um policial que montava
guarda a frente da porta do ônibus. O mesmo policial andava pelo ônibus batendo
nas janelas e mandando que fossem fechadas, pedido que não foi atendido. Outros
três policiais ficavam a frente do ônibus olhando para o outro lado da esquina.
Os palmeirenses continuaram a fazer gestos e ameaçar descer. Diminuíram o ritmo
quando notaram a presença da organizada do Santos chegando pela esquina. Três policiais
os mantiveram afastados aos gritos.
O
ônibus ficou ali parado um tempo até que o trânsito fosse liberado pela viatura
que seguia a frente da escolta. Quando passou, o segundo ônibus – que não tinha
janelas – também fez gestos de Vem e
mostrou “o dedo do meio” à torcedores e não torcedores que tomavam seu chopp ou
dançavam. Aliás, dançavam no passado, pois no momento em que a polícia chegou
até o pagode parou; até os mais despreocupados e que não deviam ser santistas,
palmeirenses, corinthianos ou são paulinos, ou mesmo gostar de futebol,
observaram preocupados as ameaças que vinham do ônibus.
Não sou
contra ou a favor de torcidas organizadas, nem tenho a pretensão utópica do fim
delas. Se querem brigar entre eles, que briguem. Ninguém ali é anjo ou demônio.
É hipocrisia achar que quem entra pra uma organizada não saiba das possíveis
consequências. Apenas não me meto em seus assuntos, assim como gostaria que não
se metessem nos meus.
O terceiro ônibus pareceu nem reparar em toda
a “confusão” que rolava ali. Torcedores passaram, ou dormindo, ou conversando
em pé no corredor, talvez até com um cooler tomando, não o chopp da vitória,
mas a cerveja da derrota.
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