Nunca gostei da cor preta. Sempre achei monótona, sem vibração, sem ânimo, sem vida. O negro asfalto mesmo talvez seja um dos fatores dessa birra. Trânsito. Lento. Estressante. Lento. Barulhento. E lento.
Em uma cidade como Santos, próximo as 19h, em uma terça-feira, adicione mais alguns lentos a conta habitual. Um raro lugar pra parar e a corrida até o portão, não sem antes, é claro, ser abordado por um dos tipos que guardam carros: "Aqui é antirrisco, antifurto, antissequestro. 20 reais", os quais ele coloca no bolso da calça preta.
O policial de farda cinza faz uma revista rápida, mas é a catraca preta que não quer passar o ingresso. Dois lances de escadas que um dia tiveram cor de cimento, mas hoje, são negras de tantos pés que as pisoteiam todo jogo. O mais rápido que o fôlego permitiu subimos o primeiro, o mais rápido que duas pessoas que já deviam ter mais de trinta anos deixaram subimos o segundo. Ambos subiam lentamente, ambos conversavam distraidamente, como se o jogo que já tinha dez minutos alguns degraus acima deles não os importasse muito, ambos vestiam o uniforme três do Santos, num tom de azul marinho, que naquele lugar escuro aos olhos de quem corria pelas ruas ensolaradas, se parecia mais com preto.
Um ruído alto do lado de fora chamou a atenção, uma espécie de apreensão misturada com esperança e uma pitada de nervosismo, aquele sentimento que toma conta de você quando seu time sobe ao ataque. “Olha o gol”, um deles fala com a maior calma. Então, ao mesmo tempo, tudo treme por uma fração de segundo e o grito explode por todos os cantos e não cantos. Os dois apertam o passo e subo atrás só pra ver os jogadores de um time de amarelo se abraçando. Rápido e facilmente é possível identificar que Geuvânio era quem anotava o primeiro gol da partida.
Subo a arquibancada do portão 24 da Vila Belmiro até o lugar de costume. Terceiro degrau de cima pra baixo, na parte mais alta e logo ouço: “Perderam o primeiro gol, po”. Frustração? Talvez. Mas não muita, afinal nos últimos dois jogos visto daquele ângulo o time tinha ido as redes cinco vezes. Mal sabia eu que não seria o caso. Porém o time de amarelo, pouco mais tarde, puxou um contra-ataque na bola roubada por Mena e Damião serviu o segundo gol de Geuvânio. O homem de preto, olha aí, apitou e deu fim a primeira etapa.
Quinze minutos mais tarde tal homem soprou novamente seu apito e disse para o jogo começar, mas disse… Por dizer. O som de seu instrumento foi o que mais se ouviu durante o segundo tempo. A todo momento e por qualquer motivo, o homem de preto parava a partida. Como um autêntico estraga prazeres. Como alguém que acende a luz quando se está vendo um filme. Como alguém que muda de música bem na hora do refrão.
Nada mudou esse panorama truncado. Nem a entrada de Gabriel pra jogar ao lado de Damião. Nem os gritos de protesto da torcida a cada vez que o som ecoava pelo estádio invertendo faltas e marcando todas as inexistentes. O segundo tempo não foi de ninguém, a não ser, do homem de preto com apito na boca. Nada de exibição iluminada, nada de muitos gols, nada de mais, nem de menos aliás, foi tudo, na verdade, mais ou menos. E o Santos agora tem a melhor campanha do Paulistão. Sem mais, nem menos.
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