domingo, 23 de março de 2014

A César o que é de César

                Pagode rolando. Chopp na mesa. Porção pra jantar. Eu e mais dois amigos estávamos em um bar próximo a Vila, na esquina do canal 1. Nas mesas ao lado alguns parentes dos integrantes do tal grupo de pagode dançavam. Além de nós três, mais cerca de sete santistas ostentavam camisas do clube do coração. A nova e a velha geração se misturavam ali. Alguns com os cabelos brancos já querendo tomar conta, outros de não mais de cinco anos, talvez fosse sua primeira vez num clássico, e até ali tudo bem.

                No alçapão santista o torcedor viu o que está acostumado neste ano: Vitória. Em grande atuação do menino que vem enchendo os olhos de todos, Geuvânio, o peixe venceu por dois tentos a um, gols marcados por Neto e Thiago Ribeiro, com Alan Kardec – velho conhecido, e querido, dos santista descontando. Foi a oitava vitória em oito jogos de um time que, dentro do Campeonato Paulista, não perde em seus domínios há três anos (a última derrota fora justamente para o Palmeiras).

                Demoramos um pouco para chegar ao bar por conta dos mais de doze mil que lotaram a vila famosa. Alguns carros de polícia chegaram à rua ao lado e uma movimentação anormal foi notada por nós. Os donos do lugar fecharam a entrada com os dois portões que deixam retirados da entrada. O que estava do lado de fora assustava.

                Três ônibus de torcedores do Palmeiras vinham pela rua em direção à saída da cidade. Os dois primeiros de torcedores organizados. Em um deles vários integrantes figuravam na parte da frente, o que estava à porta a abria e fazia sinal com as mãos. Vem. Vem. Os outros nas poltronas abriam as janelas e repetiam o sinal. Vem. Vem. Eram cerca de 100 torcedores organizados contra no máximo dez policiais em duas viaturas. Sem contar o último ônibus, que parecia contar apenas com torcedores sem ligação com tais torcidas.

                O que estava à porta fez menção de descer e foi impedido por um policial que montava guarda a frente da porta do ônibus. O mesmo policial andava pelo ônibus batendo nas janelas e mandando que fossem fechadas, pedido que não foi atendido. Outros três policiais ficavam a frente do ônibus olhando para o outro lado da esquina. Os palmeirenses continuaram a fazer gestos e ameaçar descer. Diminuíram o ritmo quando notaram a presença da organizada do Santos chegando pela esquina. Três policiais os mantiveram afastados aos gritos.

                O ônibus ficou ali parado um tempo até que o trânsito fosse liberado pela viatura que seguia a frente da escolta. Quando passou, o segundo ônibus – que não tinha janelas – também fez gestos de Vem e mostrou “o dedo do meio” à torcedores e não torcedores que tomavam seu chopp ou dançavam. Aliás, dançavam no passado, pois no momento em que a polícia chegou até o pagode parou; até os mais despreocupados e que não deviam ser santistas, palmeirenses, corinthianos ou são paulinos, ou mesmo gostar de futebol, observaram preocupados as ameaças que vinham do ônibus.

                Não sou contra ou a favor de torcidas organizadas, nem tenho a pretensão utópica do fim delas. Se querem brigar entre eles, que briguem. Ninguém ali é anjo ou demônio. É hipocrisia achar que quem entra pra uma organizada não saiba das possíveis consequências. Apenas não me meto em seus assuntos, assim como gostaria que não se metessem nos meus.

 O terceiro ônibus pareceu nem reparar em toda a “confusão” que rolava ali. Torcedores passaram, ou dormindo, ou conversando em pé no corredor, talvez até com um cooler tomando, não o chopp da vitória, mas a cerveja da derrota.