segunda-feira, 14 de abril de 2014

Tão, tão distante

                “Tu já ficou embaixo de um bandeirão?”, perguntou um amigo meu. Já tinha ficado sim, mas não debaixo daquele bandeirão. O que pega quase que completamente as arquibancadas verde e amarela. Ainda faltava mais uma hora para o jogo, fora as outras três cinco entre ônibus para a Vila, ônibus da excursão, fila pra retirar o ingresso do sócio... João Bosco e Vinicus tocavam em playback toscamente no campo, fato que poucos perceberam de fato.

                “Já, mas não desse bandeirão”, respondi. “Então hoje você vai ver”. E vi. Ou melhor, não vi. O jogo começou e o bandeirão desceu. A torcida eufórica com o início dos 90 minutos finais socava o alto para balançar o pesado tecido acima deles. Alguns pulavam para alcançar. Outros pouco se importavam de bater a cabeça nele. O importante era balançar e dar vida aquilo. Vida. Aquela era a palavra.

                O jogo começou o nervos foram só aumentando. Cada bola que perdida, cada cruzamento errado ou bola que escapava ao domínio era motivo de levar as mãos ao rosto em forma de reza. O desespero voava baixo, pouco acima das arquibancadas. Cada vez mais perto. Perto demais. A rajada de vento Cícero, no final do primeiro tempo, até tentou afastá-lo, mas foi só a bola rolar de novo que ele caiu de vez sobre os santistas. Atingiu em cheio o coração com o som de um apito: o do juiz que encerrara o jogo. Pênaltis.

                Mais que apenas pênaltis. Alternadas. Isso tudo à uma torcida acostumada a ter um dos melhores pegadores de pênaltis dos últimos anos debaixo de suas traves. Sempre que precisava Rafael aparecia e decidia a favor do peixe. Não era o caso. Talvez por isso, o desespero tenha reinado tão soberano no estádio. A cada batida do peixe a bola parecia que não iria entrar. A cada batida do Ituano, Aranha parecia não ter chances nenhumas de pegar. Até pegou, mas foi pouco.

                Quando a torcida de Itu vibrou 'ele' desceu de novo, mas dessa vez sem vida alguma. Torcedores ou tentavam descer para ir embora de imediato ou sentavam na arquibancada desolados. Sem vida. O bandeirão desceu lavando todo o desespero. Já havia feito seu trabalho. Porém não foi a tristeza, a raiva, a revolta ou qualquer outro sentimento que tomou seu lugar. Não foi nada.

                Naquele momento, embaixo do bandeirão, o mundo deixou de existir. O Pacaembu ficou distante. O Ituano ficou distante. O Santos ficou distante. O torcedor ao lado ficou distante. O futebol ficou distante. Não havia nada. Apenas o santista e ele mesmo. A noite que já havia caído fez o favor de deixar quem estava embaixo do tecido em uma escuridão confortável. Tudo que o santista desejava era que ele não subisse nunca mais. Ou que quando ele subisse aquilo fosse tudo mentira. Que o Ituano não tivesse sido campeão. Que o dia seguinte não fosse um dos aniversários mais melancólicos da história do clube que tanto amavam. Não acreditava que aquilo tinha acontecido.


                Mas o bandeirão subiu, e tudo era verdade.

domingo, 23 de março de 2014

A César o que é de César

                Pagode rolando. Chopp na mesa. Porção pra jantar. Eu e mais dois amigos estávamos em um bar próximo a Vila, na esquina do canal 1. Nas mesas ao lado alguns parentes dos integrantes do tal grupo de pagode dançavam. Além de nós três, mais cerca de sete santistas ostentavam camisas do clube do coração. A nova e a velha geração se misturavam ali. Alguns com os cabelos brancos já querendo tomar conta, outros de não mais de cinco anos, talvez fosse sua primeira vez num clássico, e até ali tudo bem.

                No alçapão santista o torcedor viu o que está acostumado neste ano: Vitória. Em grande atuação do menino que vem enchendo os olhos de todos, Geuvânio, o peixe venceu por dois tentos a um, gols marcados por Neto e Thiago Ribeiro, com Alan Kardec – velho conhecido, e querido, dos santista descontando. Foi a oitava vitória em oito jogos de um time que, dentro do Campeonato Paulista, não perde em seus domínios há três anos (a última derrota fora justamente para o Palmeiras).

                Demoramos um pouco para chegar ao bar por conta dos mais de doze mil que lotaram a vila famosa. Alguns carros de polícia chegaram à rua ao lado e uma movimentação anormal foi notada por nós. Os donos do lugar fecharam a entrada com os dois portões que deixam retirados da entrada. O que estava do lado de fora assustava.

                Três ônibus de torcedores do Palmeiras vinham pela rua em direção à saída da cidade. Os dois primeiros de torcedores organizados. Em um deles vários integrantes figuravam na parte da frente, o que estava à porta a abria e fazia sinal com as mãos. Vem. Vem. Os outros nas poltronas abriam as janelas e repetiam o sinal. Vem. Vem. Eram cerca de 100 torcedores organizados contra no máximo dez policiais em duas viaturas. Sem contar o último ônibus, que parecia contar apenas com torcedores sem ligação com tais torcidas.

                O que estava à porta fez menção de descer e foi impedido por um policial que montava guarda a frente da porta do ônibus. O mesmo policial andava pelo ônibus batendo nas janelas e mandando que fossem fechadas, pedido que não foi atendido. Outros três policiais ficavam a frente do ônibus olhando para o outro lado da esquina. Os palmeirenses continuaram a fazer gestos e ameaçar descer. Diminuíram o ritmo quando notaram a presença da organizada do Santos chegando pela esquina. Três policiais os mantiveram afastados aos gritos.

                O ônibus ficou ali parado um tempo até que o trânsito fosse liberado pela viatura que seguia a frente da escolta. Quando passou, o segundo ônibus – que não tinha janelas – também fez gestos de Vem e mostrou “o dedo do meio” à torcedores e não torcedores que tomavam seu chopp ou dançavam. Aliás, dançavam no passado, pois no momento em que a polícia chegou até o pagode parou; até os mais despreocupados e que não deviam ser santistas, palmeirenses, corinthianos ou são paulinos, ou mesmo gostar de futebol, observaram preocupados as ameaças que vinham do ônibus.

                Não sou contra ou a favor de torcidas organizadas, nem tenho a pretensão utópica do fim delas. Se querem brigar entre eles, que briguem. Ninguém ali é anjo ou demônio. É hipocrisia achar que quem entra pra uma organizada não saiba das possíveis consequências. Apenas não me meto em seus assuntos, assim como gostaria que não se metessem nos meus.

 O terceiro ônibus pareceu nem reparar em toda a “confusão” que rolava ali. Torcedores passaram, ou dormindo, ou conversando em pé no corredor, talvez até com um cooler tomando, não o chopp da vitória, mas a cerveja da derrota.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Homens de preto

Nunca gostei da cor preta. Sempre achei monótona, sem vibração, sem ânimo, sem vida. O negro asfalto mesmo talvez seja um dos fatores dessa birra. Trânsito. Lento.  Estressante. Lento. Barulhento. E lento.
Em uma cidade como Santos, próximo as 19h, em uma terça-feira, adicione mais alguns lentos a conta habitual. Um raro lugar pra parar e a corrida até o portão, não sem antes, é claro, ser abordado por um dos tipos que guardam carros: "Aqui é antirrisco, antifurto, antissequestro. 20 reais", os quais ele coloca no bolso da calça preta.
O policial de farda cinza faz uma revista rápida, mas é a catraca preta que não quer passar o ingresso. Dois lances de escadas que um dia tiveram cor de cimento, mas hoje, são negras de tantos pés que as pisoteiam todo jogo. O mais rápido que o fôlego permitiu subimos o primeiro, o mais rápido que duas pessoas que já deviam ter mais de trinta anos deixaram subimos o segundo. Ambos subiam lentamente, ambos conversavam distraidamente, como se o jogo que já tinha dez minutos alguns degraus acima deles não os importasse muito, ambos vestiam o uniforme três do Santos, num tom de azul marinho, que naquele lugar escuro aos olhos de quem corria pelas ruas ensolaradas, se parecia mais com preto.
Um ruído alto do lado de fora chamou a atenção, uma espécie de apreensão misturada com esperança e uma pitada de nervosismo, aquele sentimento que toma conta de você quando seu time sobe ao ataque. “Olha o gol”, um deles fala com a maior calma. Então, ao mesmo tempo, tudo treme por uma fração de segundo e o grito explode por todos os cantos e não cantos. Os dois apertam o passo e subo atrás só pra ver os jogadores de um time de amarelo se abraçando. Rápido e facilmente é possível identificar que Geuvânio era quem anotava o primeiro gol da partida.
Subo a arquibancada do portão 24 da Vila Belmiro até o lugar de costume. Terceiro degrau de cima pra baixo, na parte mais alta e logo ouço: “Perderam o primeiro gol, po”. Frustração? Talvez. Mas não muita, afinal nos últimos dois jogos visto daquele ângulo o time tinha ido as redes cinco vezes. Mal sabia eu que não seria o caso. Porém o time de amarelo, pouco mais tarde, puxou um contra-ataque na bola roubada por Mena e Damião serviu o segundo gol de Geuvânio. O homem de preto, olha aí, apitou e deu fim a primeira etapa.
Quinze minutos mais tarde tal homem soprou novamente seu apito e disse para o jogo começar, mas disse… Por dizer. O som de seu instrumento foi o que mais se ouviu durante o segundo tempo. A todo momento e por qualquer motivo, o homem de preto parava a partida. Como um autêntico estraga prazeres. Como alguém que acende a luz quando se está vendo um filme. Como alguém que muda de música bem na hora do refrão.
Nada mudou esse panorama truncado. Nem a entrada de Gabriel pra jogar ao lado de Damião. Nem os gritos de protesto da torcida a cada vez que o som ecoava pelo estádio invertendo faltas e marcando todas as inexistentes. O segundo tempo não foi de ninguém, a não ser, do homem de preto com apito na boca. Nada de exibição iluminada, nada de muitos gols, nada de mais, nem de menos aliás, foi tudo, na verdade, mais ou menos. E o Santos agora tem a melhor campanha do Paulistão. Sem mais, nem menos.