“Tu já ficou embaixo de um bandeirão?”, perguntou um amigo meu. Já tinha ficado sim, mas não debaixo daquele bandeirão. O que pega quase que completamente as arquibancadas verde e amarela. Ainda faltava mais uma hora para o jogo, fora as outras três cinco entre ônibus para a Vila, ônibus da excursão, fila pra retirar o ingresso do sócio... João Bosco e Vinicus tocavam em playback toscamente no campo, fato que poucos perceberam de fato.
“Já, mas não desse bandeirão”, respondi. “Então hoje você vai ver”. E vi. Ou melhor, não vi. O jogo começou e o bandeirão desceu. A torcida eufórica com o início dos 90 minutos finais socava o alto para balançar o pesado tecido acima deles. Alguns pulavam para alcançar. Outros pouco se importavam de bater a cabeça nele. O importante era balançar e dar vida aquilo. Vida. Aquela era a palavra.
O jogo começou o nervos foram só aumentando. Cada bola que perdida, cada cruzamento errado ou bola que escapava ao domínio era motivo de levar as mãos ao rosto em forma de reza. O desespero voava baixo, pouco acima das arquibancadas. Cada vez mais perto. Perto demais. A rajada de vento Cícero, no final do primeiro tempo, até tentou afastá-lo, mas foi só a bola rolar de novo que ele caiu de vez sobre os santistas. Atingiu em cheio o coração com o som de um apito: o do juiz que encerrara o jogo. Pênaltis.
Mais que apenas pênaltis. Alternadas. Isso tudo à uma torcida acostumada a ter um dos melhores pegadores de pênaltis dos últimos anos debaixo de suas traves. Sempre que precisava Rafael aparecia e decidia a favor do peixe. Não era o caso. Talvez por isso, o desespero tenha reinado tão soberano no estádio. A cada batida do peixe a bola parecia que não iria entrar. A cada batida do Ituano, Aranha parecia não ter chances nenhumas de pegar. Até pegou, mas foi pouco.
Quando a torcida de Itu vibrou 'ele' desceu de novo, mas dessa vez sem vida alguma. Torcedores ou tentavam descer para ir embora de imediato ou sentavam na arquibancada desolados. Sem vida. O bandeirão desceu lavando todo o desespero. Já havia feito seu trabalho. Porém não foi a tristeza, a raiva, a revolta ou qualquer outro sentimento que tomou seu lugar. Não foi nada.
Naquele momento, embaixo do bandeirão, o mundo deixou de existir. O Pacaembu ficou distante. O Ituano ficou distante. O Santos ficou distante. O torcedor ao lado ficou distante. O futebol ficou distante. Não havia nada. Apenas o santista e ele mesmo. A noite que já havia caído fez o favor de deixar quem estava embaixo do tecido em uma escuridão confortável. Tudo que o santista desejava era que ele não subisse nunca mais. Ou que quando ele subisse aquilo fosse tudo mentira. Que o Ituano não tivesse sido campeão. Que o dia seguinte não fosse um dos aniversários mais melancólicos da história do clube que tanto amavam. Não acreditava que aquilo tinha acontecido.
Mas o bandeirão subiu, e tudo era verdade.